No ano passado, retomei a leitura de George Orwell com A Flor da Inglaterra. Já conhecia suas obras mais célebres, mas algo me chamou atenção nesse livro. Não é um clássico como 1984 ou A Revolução dos Bichos, mas ali estavam as mesmas reflexões incômodas sobre o sistema, o poder e as escolhas que fazemos — ou que nos forçam a fazer.
Orwell tem esse dom de plantar ideias pequenas, como ervas daninhas. Elas crescem quando você não está olhando e, de repente, lá estão, enroscadas em tudo. Você tenta resistir, mas é tarde demais. Há algo de irritante nisso. Um escritor que te engana, que te puxa sem avisar. Mas gosto dos temas. Gosto de como ele aponta o dedo e diz: “aqui”.
Em A Flor da Inglaterra, o protagonista Gordon Comstock declara guerra ao dinheiro. Ele vê na busca por riqueza e status um veneno que contamina tudo: relações, propósitos, ações. Essa percepção o empurra para fora de um mundo que ele despreza, mas que, paradoxalmente, também o rejeita. Do lado de fora, Gordon observa as engrenagens que giram sem ele — um exílio escolhido, mas não menos doloroso.
As escolhas de Gordon cobram um preço alto. Ele já não consegue escrever, algo que antes o definia. A poesia, sua última fortaleza, desmorona. Para alguém que se diz poeta, isso é devastador, como se algo essencial estivesse em ruínas. Sua luta não é heroica, nem inspiradora; é a de um homem comum, teimoso e quebrado. Difícil de entender, mais ainda de gostar. E, mesmo assim, eu me via nele — não no que dizia, mas no que sentia.
“Mas agora ele entendia qual era o problema deles. Não era só falta de dinheiro. Na verdade, mesmo não tendo dinheiro, eles ainda viviam mentalmente no mundo do dinheiro, o mundo em que o dinheiro é virtude e a pobreza é crime. Não era a pobreza, e sim o mergulho na pobreza respeitável, que acabara com suas possibilidades. Tinham aceitado a lei do dinheiro, e nos termos dessa lei, eles eram fracassados. Nunca tiveram o bom senso de se libertar e simplesmente viver, com ou sem dinheiro, como fazem as classes baixas.”
George Orwell – A Flor da Inglaterra
As escolhas de Gordon me levaram a pensar na minha própria relação com o trabalho. Trabalhar nunca me pareceu interessante. Não era preguiça, posso garantir. Nunca fui bom nisso. Trabalhar, quero dizer. Sempre foi mecânico, como se eu fosse apenas uma engrenagem. Horários, ordens, tarefas… algo dentro de mim resistia a tudo isso. Meu primeiro emprego terminou em justa causa, e talvez não fosse para menos. Sempre me pareceu que o homem é um ser que trabalha para sobreviver, mas perde a vida no processo.
Esse incômodo começou ainda no colégio. Como se eu não estivesse ali para aprender, mas para ser moldado, ajustado. Os livros não eram uma porta para conhecer o mundo; eram ferramentas para alcançar a nota certa, para provar que eu poderia ser útil, obediente, produtivo. Perguntas certas, respostas exatas. O desvio, o questionamento, a dúvida… nada disso cabia.
Em casa, essa lógica rígida seguia inabalável, passada como um legado: carteira assinada, vale-refeição, o status simbólico de um crachá. Um pacto silencioso, renovado de geração em geração, que oferecia segurança e, talvez, um propósito. Mas foi nesse mesmo espaço que os primeiros sinais de ruptura começaram a surgir. Porque ser jovem é isso: recusar o óbvio, abraçar o incerto e romper, mesmo sem saber exatamente para onde ir.
Minha geração cresceu na transição entre o analógico e o digital, um espaço de mudança que, para mim, trouxe possibilidades de fuga. A internet, ainda em seus primeiros passos, abriu caminhos antes impensáveis: criar e trabalhar de outra forma. Criei sites, errei, recomecei. Eu poderia ter seguido o caminho seguro, mas queria algo que fosse verdadeiramente meu, algo que refletisse quem eu era.
Pela primeira vez, cabia a mim decidir o que fazer e quando fazer. Não havia ordens, nem relógios marcando minha rotina. Era liberdade, ou algo que parecia ser. Porque toda liberdade traz junto um peso — o peso de quem nunca terá essa escolha. Não sejamos ingênuos: eu tive oportunidades, a chance de fazer escolhas que muitos jamais terão.
“O seu erro, não vê, é pensar que a pessoa pode viver numa sociedade corrupta sem ela própria se corromper. Afinal, o que você consegue recusando-se a ganhar dinheiro? Você tenta se comportar como se fosse possível manter-se simplesmente fora do nosso sistema econômico. Mas é impossível. O que precisa ser mudado é o sistema; se ele não mudar, nada mudará.”
George Orwell – A Flor da Inglaterra
Seguindo essa minha lógica rebelde, criei o Jornada Literária. Sempre gostei de fazer sites e construir meus próprios espaços. Mas o erro foi ter ficado preso ao formato e às limitações de ser mais um perfil literário no Instagram. O Jornada nunca foi sobre trabalho; escrever, para mim, nunca foi trabalho. Escrever é ser eu mesmo.
O Jornada era um refúgio, um lugar para registrar leituras, compartilhar ideias e criar conexões. Simples, despretensioso. Mas, inevitavelmente, alguém perguntava: — ‘Isso dá dinheiro?’ Nesses momentos, eu era o próprio Gordon Comstock, mergulhado na sua frustração.
Em 2024, escolhi o silêncio. Não publiquei resenhas, não compartilhei nada, tentando escapar da pergunta incômoda: eu estava escrevendo ou apenas alimentando o ciclo de produção vazio? Aos poucos, entendi que precisava de algo novo. Um espaço onde eu pudesse existir como escritor — longe de moldes, longe de algoritmos.
Assim nasceu o Cronicultura. Um lugar para ser livre, para ir além dos livros. Em breve, quero explorar filmes, mergulhar na música e compartilhar meus contos. Um espaço onde a escrita não tem amarras e a criação pode ser tão ampla quanto a imaginação permitir.
Seja bem-vindo(a).