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Escrever para existir

Nem sempre as palavras importam; às vezes, atrapalham. Frases podem ser vazias, sem sentido. Escrever, porém, é mais do que isso — um exercício de perder-se e, quem sabe, encontrar-se. Digo isso porque escrever nunca foi simples. Nem compreender, nem ser compreendido.

Um texto não é só palavras no papel. É um pacto estranho: você me dá os olhos, eu tento oferecer um mundo. Entre nós, surge um gesto — o de dar sentido. Um texto sem leitor é só silêncio. 

Mas que sentido? Que história? Eu tinha uma suspeita: escrever era, antes de tudo, descobrir quem eu era. Uma história que não é uma história.

Comecei a criar como quem tateia o escuro, buscando uma voz que, talvez, fosse minha. Eu queria escrever um conto, mas antes precisava entender o que queria compartilhar. E o que eu tentava esconder. A trama, veja só, não me fascinava tanto quanto a descoberta de como contá-la. A forma, sempre ela.

A arte — a literatura, em especial — é um mediador, um fio que conecta o pessoal ao coletivo. Não é só contar algo; é buscar um equilíbrio, revelar emoções sem sufocar a si mesmo. Escrever é dar forma ao que não cabe no silêncio.

Não somos todos artistas em potencial? Cada um com suas ferramentas, tentando moldar o que carrega por dentro. O segredo, acredito, está em encontrar uma linguagem que me sirva como pele — que me revele e, ao mesmo tempo, que me esconda. Minha vontade de escrever nasce desse impulso de expor os incômodos, de traduzi-los em algo que pareça fazer sentido. 

Mas o que seria o sentido, afinal? Talvez o sentido seja apenas uma idealização da razão, uma tentativa de impor lógica ao caos que habita em mim. E, ainda assim, não me sinto confortável em ofuscar o que sinto usando a desculpa do racional. Eu sou, afinal, tudo, menos lógico. Sou feito de instintos, dúvidas e uma inquietude que se recusa a caber em explicações.

Gostar de ler me deu algo valioso: um jeito de lidar com o mundo, de suportar o que me escapa. Sou um observador — desses que não sabem se olhar é bênção ou fardo. Tropeço nas palavras, mas sigo tentando entender o que me cerca.

Falar do que sinto é como tentar conter água nas mãos: o essencial sempre escorre. Minha comunicação é feita de pausas e lacunas. Falo pouco, sou moldado pelo silêncio. Ainda assim, carrego em mim um escritor que insiste em traduzir o que não sei dizer.

Escrevi este ensaio. Reescrevi. Uma, duas, dezenas de vezes. Me perdi nele até me reencontrar. A primeira versão? Era um amontoado de ideias sem chão. Depois de tantas tentativas, percebi: escrever não é só preencher o papel. É dar vida. Um texto vive no que conecta, no que prende.

Relendo a primera versão, percebi que as ideias estavam lá, mas faltava algo vital: minha voz. Eu me escondia nas frases, como quem sussurra para não ser ouvido. Reorganizar virou mais que uma tarefa: tornou-se urgência. Precisei encarar meus medos e transformá-los em histórias. E sentir.

Pensar na leitura como uma forma de ampliar minha visão de mundo me levou a revisitar meus escritores e personagens favoritos da adolescência: Stephen King e Tolkien.

Aos dezesseis anos, achava que adorava o terror, mas o que realmente me fascinava era outra coisa: a forma como os personagens de King enfrentavam seus medos. Só percebi isso anos depois, numa dessas ironias que a vida guarda pra mais tarde. Nessa mesma época, encontrei em Sam, de O Senhor dos Anéis, um modelo de amizade que moldaria meus valores.

A literatura é assim, não é? Ela nos permite viver realidades que não são nossas, mas que tocam fundo em quem somos. As crises dos personagens de King também eram as minhas. E as decisões de Sam ao lado de Frodo ajudaram a definir aquilo que, no fundo, eu já acreditava.

Foi assim que percebi: os livros são uma via de mão dupla. A ficção reflete minhas vivências, e ao mesmo tempo, abre caminhos para encontrar sentido e pertencimento em um mundo que tantas vezes parece escapar ao meu entendimento.

Talvez seja essa a razão de eu querer escrever. Uma tentativa incessante de organizar o caos que me cerca, de transformar o que leio em algo que expresse minha própria visão de mundo — um mosaico feito de fragmentos emprestados de outros autores.

Tentarei dar vida a essa ideia com Jorge Luis Borges, que dizia que uma biblioteca é uma biografia. Concordo. Os livros que lemos moldam quem somos, como peças de um mosaico que tentam decifrar nossos próprios sentimentos.

É curioso como meus autores favoritos sempre reforçaram algo que já habitava em mim, mesmo antes de eu perceber. Em Saramago, a provocação às normas sociais e religiosas me encantava e inquietava. Philip K. Dick, por sua vez, me ensinou a duvidar da realidade e aceitar que nossa relação com o mundo depende de interpretações — falhas e fragmentadas, como nós mesmos.

Há uma diferença entre o Eduardo leitor e o Eduardo escritor. Meus livros prediletos exploram temas que sempre me interessaram. Já os autores que moldam minha escrita, como Kafka, Borges e Clarice Lispector, oferecem mais do que ideias: entregam formas. Suas narrativas têm abordagens que transcendem o óbvio, cada palavra escolhida para inquietar, desajustar, ecoar.

Há uma história que sempre me intrigou. Gabriel García Márquez disse ter lido a primeira frase de A Metamorfose de Kafka e, naquele instante, descobriu que a literatura podia ser outra coisa. “Quando Gregor Samsa acordou certa manhã de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.” Foi como abrir uma porta para um mundo onde tudo era permitido.

Senti algo semelhante ao ler Ficções, de Jorge Luis Borges. Não foi apenas assombro — foi uma revelação. Borges não conta histórias; ele constrói labirintos. Cada frase é um corredor que se desdobra em mais perguntas, mais caminhos, como se o leitor também fosse parte do jogo. Depois de ler Pierre Menard, autor do Quixote, percebi que nunca mais pensaria na escrita do mesmo jeito. O contexto transforma tudo. Um texto não é só o que está escrito, mas o que carrega — os olhos que o leem, o tempo que o molda, as vidas que o tocam.

Essa sensação de deslocamento, de ser estranho ao próprio mundo, me acompanha. Talvez seja por isso que Kafka, Clarice e Borges falam tanto comigo. Em seus textos, encontro não respostas, mas espelhos. E, nesses espelhos, a mesma pergunta volta sempre: qual o sentido de tudo isso? Ou, talvez, por que insisto tanto em procurar?

O mais surpreendente foi terminar uma das infinitas versões deste ensaio e, pela primeira vez, sentir-me pronto para escrever meu conto. Não um conto qualquer, mas aquele que parecia me esperar, escondido. Quando finalmente o escrevi, encontrei algo que, de tão inesperado, parecia ter sempre estado lá: eu mesmo. Entre as palavras, vi meu reflexo, nu e exposto. Ali estava o que busquei por tanto tempo — um caminho.

Mas caminhos não são destinos. Voltei a este ensaio para me desfazer outra vez, aceitar o que relutei em admitir: entender-se é sempre um exercício de fracasso. E talvez seja esse o verdadeiro ponto de partida.

Talvez existir não tenha sentido. Se não tem, o que sobra? Um vazio? Uma espera? Hoje, me preocupo menos com o porquê e mais com o como. Como reagir à ausência que me observa?

Foi a leitura que me ensinou a transformar o desconforto em algo que parecesse compreensão, uma resposta que nunca chega. Mas foi na escrita que descobri algo maior: colocar os assombros no papel tornou tudo mais verdadeiro. Porque só no susto, no risco, no erro, é que se vive de fato.

Borges tinha razão: minhas leituras são minha biografia. Em cada livro, encontro um pedaço de quem fui ou de quem espero ser. Escrever me ajuda a existir.