Dizem que a barbearia é o último refúgio da masculinidade tradicional. Não o futebol, nem o churrasco com cerveja, mas aquele lugar onde homens, munidos de espelhos, navalhas e pequenas vaidades, se reúnem para agir exatamente como acham que as mulheres agem. Eles falam demais, opinam sobre tudo e transformam o ambiente numa espécie de parlamento improvisado, onde cada um defende sua tese sobre carros, futebol e mulheres como se estivesse salvando a humanidade. O curioso é que, apesar de tanto barulho, ninguém parece realmente ouvir o outro.
Ir ao barbeiro, para mim, é como se preparar para uma missão suicida. Confesso que já deixei o cabelo e a barba crescerem mais do que deveria, não só para evitar o tormento, mas também para esconder os primeiros sinais de calvície que insistem em aparecer. É uma tentativa fútil, eu sei, mas que me dá a ilusão de controle. Só que chega uma hora em que não dá mais para adiar. Olhei no espelho, vi as entradas cada vez maiores e percebi que estava parecendo um agitador cultural dos anos 70. Então fui.
Entrar numa barbearia é como assistir a um desfile de inseguranças disfarçadas de bravura. Cada um ali parece empenhado em provar que é o maior macho do recinto, enquanto tenta desesperadamente esconder qualquer fragilidade. É como uma competição olímpica sem medalhas, apenas egos inflados. E o pior é que ninguém percebe que o espetáculo é uma comédia pronta. Eu, do lado de fora, só penso: será que dá pra cortar cabelo por telepatia?
Dentro, parece que decoraram o ambiente com o kit “Masculinidade Básica.” Pôsteres de motos, barbudos estilosos, uma mesa de sinuca intocada, fotos do The Rock e pôsteres de Velozes e Furiosos formam o conjunto. Há até uma espingarda pendurada na parede, como um troféu rústico. Fico olhando e me perguntando: será que serve para assustar clientes indecisos ou foi só o barbeiro tentando dar um toque “viril” à decoração? Tudo exala testosterona, mas talvez apenas o suficiente para mascarar uma crise existencial coletiva.
Enquanto observo o ambiente, fica claro que os frequentadores são os verdadeiros protagonistas. Tem o Comedor Garanhão, porque, claro, sempre tem um. Ele gesticula, ri alto e descreve suas supostas aventuras amorosas com a segurança de quem acredita na própria ficção. “Três na mesma noite, mano. Não é pra qualquer um.” A plateia troca olhares céticos, mas ninguém contesta. Ele nunca foi visto com ninguém, mas sua imaginação é digna de um best-seller erótico. Se esse filho da puta descobrir que é um escritor em potencial, minha carreira tá acabada.
Na cadeira ao lado, o Pai Roqueiro Separado tenta salvar a nova geração da decadência musical. “Minha filha já gosta de Iron Maiden,” ele diz, com a seriedade de quem espera um prêmio por isso. O que ele não conta é que ela ouve isso entre batidas de funk e vídeos de K-Pop no TikTok.
E então tem o Tiozão do Zap, aquele que acha que “hoje o mundo tá chato” e não perde uma chance de repetir isso para quem passa por perto. Ele está atrás de mim na fila e, claro, puxa conversa: “Esses jovens de hoje não respeitam mais nada. Não sei onde o mundo vai parar com tanto lacrador e gay por aí,” ele dispara, com a confiança de quem acredita que sua opinião é um serviço público. Tento desviar o olhar, mas ele insiste.
O Tiozão do Zap é formado em “achismos aplicados,” com especialização em memes e áudios de WhatsApp. Suas “fontes confiáveis” vêm de grupos como “Família de Bem”, onde mensagens cheias de emojis de bandeiras, arminhas e frases em caixa alta confirmam suas teorias. É uma mistura patética de patriotismo de sofá e culto à violência, como se fazer o gesto da arminha com a mão fosse resolver todos os problemas do país. E, claro, ele sempre finaliza com o seu bordão favorito: “Esses comunistas de merda!”
“Você é casado, né? Família é tudo. Sem família, o homem não é nada.” Digo que sim, apenas para não prolongar a conversa, mas ele segue firme: “Agora esse negócio de homem querer ser mulher… Isso é falta de Deus. Na minha época, isso não existia. Homem era homem, mulher era mulher.” Não respondo. Pela primeira vez, penso que talvez a calvície seja mesmo um presente da natureza.
E como se não bastasse, ele ainda emenda: “Mas, olha, quando eu era mais novo, adorava uma mulher casada. Se não tivesse aliança, nem interessava, entende?” Não, não entendo. E rezo silenciosamente para que minha vez chegue logo.
Enquanto espero, reparo no barbeiro. Ele não corta só cabelos; é um cirurgião plástico improvisado, tentando consertar egos despedaçados com um degradê bem feito. “Tá perfeito, chefe. Agora sim, tá alinhado,” ele diz, como se estivesse entregando um certificado de masculinidade renovada.
Homens que gostam de posar como fortes e seguros se revelam aqui como dondoquinhas carentes de aprovação. Lá fora, batem no peito e fingem virilidade; aqui dentro, pedem creminho na barba. A barbearia é um altar de vaidades frágeis, onde cada elogio serve para remendar o ego. É como assistir a uma encenação de quinta categoria, só que os atores levam o papel a sério demais.
Finalmente, chega a minha vez. Sento na cadeira, e o barbeiro dispara a famigerada piada: “Corta na frente e pica atrás?” Não respondo, apenas encaro o espelho e me pergunto como cheguei a esse ponto. Ele comenta sobre o campeonato brasileiro — porque, aparentemente, o silêncio é uma língua que ele não fala. “E aí, tá bom assim?” Tá ótimo!. Só porque agora posso desaparecer daqui pelo máximo de tempo possível.
Enquanto saio, sinto um alívio que beira a felicidade. Talvez seja até uma bênção que meu cabelo esteja começando a cair. Porque, finalmente, poderei dar adeus ao espetáculo da barbearia — e foda-se o degradê!